foto:Billy
CANOAGEM SLALOM
Foz do Iguaçu, 31/01/2018
Argos Gonçalves Dias Rodrigues
Tecnicamente o nível de dificuldade da navegação em uma pista de canoagem montada em rios naturais comparando ao encontrado em eventos realizados em canais artificiais é completamente distinto, sendo muito mais complicada a execução das manobras nos canais de concreto onde a água se torna mais “mexida” (na terminologia utilizada pelos próprios atletas).
No Continente Americano apenas o Brasil e os Estados Unidos podem se dar ao luxo de contar com essas importantes ferramentas olímpicas, nenhum outro país do continente possui canal artificial construído especificamente para a prática da Canoagem Slalom. Após os Jogos Rio2016, o Brasil passou para o seleto grupo de países que possuem mais de um canal artificial visando esta finalidade desportiva. Para se ter ideia do que significa isso, basta lembrar que na Europa somente as principais potências do esporte como a França, Alemanha, Inglaterra, República Tcheca, Eslováquia e Eslovênia ingressam nesse grupo.
Os canais artificiais tiveram início nos Jogos Olímpicos de 1972, em Monique, quando então os alemães apresentaram ao mundo a possibilidade de se praticar o esporte em um local propício para a Canoagem Slalom, onde o homem pudesse controlar a vazão independentemente das intempéries e estabelecer o nível de dificuldade introduzindo obstáculos artificiais. Embora construído a 70 km da sede dos Jogos, na Cidade de Augsburg, esse primeiro canal artificial é utilizado até hoje para grandes eventos previstos no calendário da Federação Internacional de Canoagem, sem que para isso tenha sido necessária qualquer reforma significativa.
Após Monique, a Canoagem Slalom ficou fora dos Jogos Olímpicos para retornar apenas no ano de 1992, nos Jogos de Barcelona. Da mesma forma que aconteceu em 1972, o canal de canoagem não foi construído na cidade sede. Na Espanha escolheram La Seu d´Urgell, cidade distante a aproximadamente 200 Km de Barcelona, mas com maior possibilidade de água o ano todo. Também da mesma forma que o Canal de Augsburg, La Seu D´Urgell é presença constante em todos os calendários da Federação Internacional, tendo uma importância fundamental neste ciclo de 2017/2020, pois lá serão definidas as primeiras vagas para os Jogos Olímpicos de Tóquio2020, no Campeonato Mundial que será realizado em setembro de 2019.
Depois de La Seu d´Urgell vários canais artificiais começaram a surgir no mundo, inclusive no Brasil quando no ano de 1996 o Governador do Estado do Paraná resolveu criar um evento para divulgar a Costa Oeste do Estado através dos Jogos Mundiais da Natureza. Para elaboração do projeto o Estado trouxe alguns especialistas e um deles foi o Sr. Manolo Fonseca, ex-presidente da federação espanhola de canoagem, ex-membro do Board da ICF e CEO dos Jogos Olímpicos de Barcelona na época. Deslumbrado com as possibilidades dos locais previstos para a execução do evento, sugeriu a construção do Canal para a realização das provas de Canoagem Slalom e Rafting.
Para essas duas modalidades, a intenção do Governo do Estado foi de aproveitar uma demanda ambiental existente com a construção da Itaipu Binacional, onde a migração dos peixes se interrompeu em decorrência da magnífica e necessária obra de engenharia, e realizar um bypass entre o reservatório e o Rio Paraná. Quem teve o privilégio de conhecer o projeto inicial, a intenção era transformar toda área do Parque da Piracema em um grande atrativo turístico para a Cidade, com exploração de passeios de rafting da tomada de água até o Rio Paraná através do leito natural do Rio Bela Vista, que com certeza teria procura similar aos melhores passeios ecoturísticos já realizados em Foz.
Finalizando a parte de concretagem da obra, logo após o chamado Lago Superior, estavam previstos dois canais para a canoagem. O primeiro chamado Canal de Águas Bravas e o segundo chamado de Canal de Iniciação. Aquele com volume de água de até 20 m3/s, onde os principais atletas deveriam treinar e serem realizadas as competições e o segundo para os jovens atletas iniciantes de Foz do Iguaçu. Para elaboração do Projeto, o Governo do Estado do Paraná, foi buscar na Espanha os engenheiros projetistas do circuito de canoagem utilizado nos Jogos Olímpicos de Barcelona: Sr. Ramon Ganyet Solé e Manolo Fonseca presidente da federação espanhola de canoagem, membro do Board da ICF e CEO dos Jogos Olímpicos de Barcelona.
A estrutura financiada pelo Governo do Estado do Paraná sempre teve três importantes viés: esporte, turismo e meio ambiente, cada qual com a sua importância característica, porém todas com o respaldo financeiro público e devidamente previstos no objeto licitatório. Isso se comprova com as contratações internacionais dos especialistas espanhóis e dos editais licitatórios e projetos da época. Infelizmente aconteceram vários problemas na execução da obra os quais acabaram aniquilando grande parte do escopo precípuo.
O fato é que a conclusão da obra prevista para 1997 veio a acontecer somente em 2006, quando a Itaipu Binacional autorizou, de forma corajosa e inédita, o ingresso do esporte e a Prefeitura de Foz do Iguaçu auxiliou a Confederação Brasileira nas alocações dos obstáculos de fundo, finalizando assim o primeiro e único canal de canoagem do Continente Americano até então.
Neste ano de 2018 o Canal Itaipu estará completando 12 (doze) anos de eventos desportivos com várias ações de nível nacional e internacional, ganhando status da Federação Internacional de Canoagem como um dos circuitos mais importantes do mundo. Ao todo foram realizados 7 eventos internacionais (sendo 3 mundiais) e 17 eventos nacionais. Poucos locais no mundo conseguiram essa performance extraordinária em sediar grandes eventos de canoagem. Este excelente desempenho foi reconhecido pelo próprio Governo Federal que hoje considera o Canal Itaipu como Centro Nacional de Treinamento: http://www.esporte.gov.br/index.php/institucional/alto-rendimento/rede-nacional-de-treinamento
Como em qualquer outro esporte não relacionado à bola, as coisas tendem a evoluir na busca sempre constante de mais adesões, espaços na mídia e da própria autossustentabilidade. Com essa visão de transformar um centro de canoagem em um produto turístico, os organizadores dos Jogos Olímpicos de Sidney, no ano de 2000, inovaram com a introdução dos “rapid bloks” como obstáculos de fundo no canal olímpico. Ao invés de pedras, lançaram moda blocos de plástico rotomoldados que se encaixavam facilitando assim a construção ideal de uma corredeira para o esporte e para a prática do rafting turístico que atualmente financia as despesas da imensa maioria dos centros de treinamento do mundo.
Do início do século até os dias de hoje, vários canais artificiais foram construídos utilizando-se das duas tecnologias: da forma antiga, com pedras e a da forma mais moderna, com blocos de plásticos rotomoldados. Ambas as tecnologias são válidas e bastante utilizadas no circuito internacional. Não há que se falar em canal obsoleto por sua idade e muito menos em projetos oficiais previstos pela Federação Internacional. As duas únicas características realmente importantes são o desnível aproximado de 2% e a vazão mínima de 12 m3/s.
Nesta última década, por exemplo, dois canais construídos e que fazem parte do rol dos mais importantes e procurados pelas equipes de todo o mundo atualmente são Paul, na França e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Ambos construídos com a utilização apenas de pedras e não dos blocos de plástico e, com absoluta certeza, essa escolha não foi objetivando a redução de custos.
Além destes canais, Augsburg (GER) , La Seu D´Urgell (ESP), Praga (CZE) e Tacen (SLO) são sedes frequentes de Copas do Mundo e Mundiais. Essas construções todas são do mesmo estilo que Foz do Iguaçu e JAMAIS uma voz sensata sequer, mencionou em deixar de ter eventos nestes lugares em virtude dos novos conceitos de canal. Isso não vai acontecer nunca, simplesmente porque o que se busca no esporte é a imitação de um leito natural de um rio com significativa dificuldade de navegação, sendo os obstáculos de pedras ou de plástico.
Sidney foi o primeiro grande exemplo de autosustentabilidade de Canal de Canoagem e, por esse motivo, em todas as sedes dos demais Jogos Olímpicos tentou-se copiar o modelo de obstáculos de fundo, sempre com evoluções no sistema de desenhos e encaixes dos rapid bloks. Obviamente que o auge da tecnologia, sem nenhuma dúvida, está hoje inserida no Canal Rio, em Deodoro. Por este motivo o mais completo e desejado canal de treinamento atualmente é brasileiro e está situado na Cidade Maravilhosa, contendo trilhos no fundo que movimentam obstáculos de plásticos rotomoldados imitando aqueles jogos antigos de legos quando uma peça vai se encaixando sobre a outra, podendo as corredeiras serem adequadas (moldadas) aos diferentes níveis de evento em poucas horas de trabalho.
Para um leigo, após a análise da assertiva acima, a impressão que se tem é que nas condições mencionadas, os atletas brasileiros devem se concentrar preferencialmente na Cidade do Rio de Janeiro, ao invés de treinarem em Foz do Iguaçu, em Canal construído nos padrões antigos. É exatamente nesse tema que o País, a partir de agora, começa a levar enorme vantagem sobre seus concorrentes.
Ocorre o seguinte, hoje existem duas ferramentas olímpicas de preparação específica de acordo com os principais objetivos. Por exemplo, se o mundial for realizado em Londres, o correto será a equipe treinar no Canal do Rio, pois as características se assemelham. Porém, se o campeonato mundial for realizado na Espanha, o correto é se preparar no Canal Itaipu, exatamente pelo fato da equiparação no formato das construções.
Neste ano não tem que se discutir onde os principais atletas seniores devem estar em virtude de que o Campeonato Mundial Sênior será realizado na Cidade do Rio de Janeiro em setembro. Entretanto, isso já não vai ocorrer para o ano de 2019, quando o principal evento que será classificatório para Tóquio2020, está previsto para La Seo d´Úrgell, na Espanha. Neste caso específico o canal ideal passa a ser o Canal Itaipu.
Não pode haver maior ou menor interesse dos atletas ou da própria Confederação Brasileira de Canoagem por este ou aquele canal. Ambas instalações são ferramentas imprescindíveis para a tão sonhada medalha olímpica. É assim que funciona o alto rendimento. São raros os países com estas condições favoráveis e não haverá nunca bairrismo exacerbado que ultrapasse a necessidade do Brasil em conseguir resultados internacionais.
Para se concluir tecnicamente a importância de se remar em condi&cce

